Negritude feminista na história do Brasil – Legado de Lélia Gonzales

“O importante é estar atento aos processos que estão ocorrendo dentro dessa sociedade, não só em relação ao negro, ou em relação à mulher” – Lélia Gonzalez

Hoje, vinte anos se completam desde que a guerreira Lélia Gonzalez passou à condição de “ancestral”. Durante sua trajetória, Lélia ensinou o significado da batalha que travou contra o racismo e inspirou o avanço das conquistas das mulheres negras.

Nascida em Belo Horizonte, em 1º de fevereiro de 1935, tinha 59 anos quando faleceu, em 10 de julho de 1994, no bairro Santa Teresa, no Rio de Janeiro. Lélia era a penúltima de 18 irmãos e irmãs. Filha de pai negro, cuja profissão era ser ferroviário, e mãe índia. Lélia cuidou da mãe, quando residiam na Tijuca, quando, no final de 1960, Dona Urcinda faleceu. Até o momento Lélia se chamava Lélia de Almeida, casando aos 28 anos, assumindo definitivamente o sobrenome Gonzalez.

Graduada em História/Geografia e Filosofia, Gonzalez era reconhecida pela dedicação e inteligência. Com sua percepção, um convite de ser assistente pessoal foi feito pela universidade, fazendo parte do curso de Filosofia, na UERJ e, mais tarde, na UFRJ.

Lecionou em escolas de nível médio, faculdades e universidades. Foi professora na rede estadual de ensino. Gostava de que os alunos fizessem reflexões, sendo recebida muito bem nas escolas.

LEGADO AO MOVIMENTO NEGRO
“Essa questão do branqueamento bateu forte em mim e eu sei que bate muito forte em outros negros também. Há também o problema de que, na escola, a gente aprende aquelas baboseiras sobre os índios e os negros, na própria universidade o problema do negro não é tratado nos seus devidos termos”, disse em entrevista ao O Pasquim, em 1986.

Em 1982, Lélia escreveu “Lugar de Negro”, juntamente com Carlos Hasenbalg. Embora tenha mostrado na escrita, a grande força era na oralidade. Depois da compreensão da exclusão e opressão, Lélia não mudou, continuou no caminho da trajetória intelectual e teórica, dedicando-se à leitura dos pensadores negros, da história, rainhas, lendo e refletindo adentro. A preocupação norteou campanhas para cargos públicos, em 1982 (PT, 1ª suplente como Deputada Federal) e em 1986 (PDT, suplente de Deputada Estadual), tendo como principais referências as liberdades individuais e as transformações sociais.

Sua trajetória foi irrestrita e permanente, na direção do conhecimento. Falava três línguas (espanhol, inglês e francês). Com uma riquíssima bagagem, fazia com que fosse compreendida, principalmente na questão crucial. Não tinha paciência para escrita nos moldes acadêmicos, trazendo uma transformação do real, representando uma Griot que contava histórias verdadeiras para o seu povo.

CONTRIBUIÇÃO ÀS QUESTOĒS FEMINISTAS
O referencial teórico de Lélia inspirou uma geração de jovens e mulheres negras a partir da década de 70 ao trazer o pensar feminista das mulheres negras em contraponto ao feminismo das mulheres brancas para reflexão.

Além de “Lugar de Negro”, Lélia deixou “Festas Populares no Brasil”. Seus escritos tinham cenário da ditadura militar e da emergência dos movimentos sociais, revelando sua capacidade intelectual e identificando sua preocupação em articular as lutas mais amplas da sociedade com a demanda específica dos negros, das mulheres e homossexuais. A guerreira sempre acreditou no bem, dedicando-se ao estudo das culturas humanas.
Na militância, a participação da criação do Instituto de Pesquisas das Culturas Negras, do Movimento Negro Unificado, em nível nacional, do Nzinga Coletivo de Mulheres Negras-RJ, do Olodum-BA, dentre outros. Após sua morte, diversos grupos apareceram no país, lançando seu nome como forma de homenagem.

As referências feitas à Lélia são muito fortes, inclusive em nível internacional, e inúmeras homenagens em nível nacional. O texto foi montado em cima da ardilosa pesquisa de Ana Maria Felippe, carioca, graduada em Filosofia pela UERJ, pós-graduada em Filosofia da Ciência, pela UFRJ, professora, articulista, consultora, fundadora do Instituto de Pesquisa das Culturas Negras (IPCN), Coordenadora de Memória Lélia Gonzalez, presidente da Sociedade de Estudos e Atividades Filosóficos (SEAF).

Ainda persiste o desafio de transformar uma sociedade não sexista e racista, mas as características dessa militância deixadas por Lélia contribuíram muito para a compreensão das questões raciais e de genero no país. Uma mulher corajosa desafiadora e que em busca da “revalorizacao da mulher negra”, continua seguindo como uma grande inspiração.

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