A Marcha está na rua!

A Marcha das Mulheres Negras 2015 está ganhando o Brasil. No final de maio, as organizações nacionais que estão à frente da mobilização se reuniram, em Brasília, para traçar o plano operativo da Marcha.

Em maio, Comitê Impulsor reuniu-se em Brasília Foto: Isabel Clavelin

Em maio, Comitê Impulsor reuniu-se em Brasília
Foto: Isabel Clavelin

Entre as principais definições: a data da marcha – 13 de Maio de 2015, em Brasília. A mobilização será realizada no Dia Nacional de Combate ao Racismo, agregando a luta das mulheres negras contra o racismo e a violência e pelo bem viver. Novos significados para uma data histórica, a qual foi desconstruída pelo movimento negro e ganha, a partir de 2015, reforço sobre a luta por direitos da população negra.

Veja mais fotos no Flickr da Marcha.

Na Conapir, Marcha mobiliza ativistas e organizações de mulheres negras e de movimento negro

Ativistas negras empunharam faixas e tomaram a palavra, em novembro de 2013, para se contraporem ao racismo na 3ª Conferência Nacional de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, em Brasília. Foi um dos principais atos do movimento social negro na conferência, realizado na capital federal. Deu continuidade aos lançamentos regionais, ocorridos em São Luís, Salvador e diversas outras cidades brasileiras.

Ato de lançamento da Marcha das Mulheres Negras 2015,  na 3ª Conapir, em novembro de 2013

Ato de lançamento da Marcha das Mulheres Negras 2015,
na 3ª Conapir, em novembro de 2013


Estava dado o passo decisivo para a nacionalização da Marcha das Mulheres Negras a partir do debate com militantes e organizações. A mobilização nacional está marcada para o dia 25 de julho, Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, com a reivindicação das afro-brasileiras. Essas são algumas das demandas:

 Para exigir do Estado brasileiro e dos diferentes setores da sociedade o fim do racismo, da discriminação racial e de toda a violência contra as mulheres negras;
 Por reparação da dívida histórica que o Brasil tem para com a população negra;
 Pelo fim do genocídio das mulheres negras, das crianças, dos jovens e dos homens negros;
 Para que o conhecimento do patrimônio genético brasileiro seja respeitado e patenteado pelas comunidades tradicionais detentoras desses saberes;
 Por outro modelo de desenvolvimento onde a população negra esteja incluída.
 Por um novo país, democrático, laico, diverso e igualitário com justiça social e sem corrupção;
 Pela livre expressão da fé e da religiosidade;
 Pelo fim do sexismo, da lesbofobia e da homofobia;
 Para que casos como o de Alyne Pimentel, Beatriz Nascimento, Yá Mukumby, Amarildo, Douglas Rodrigues, Claúdia Ferreira da Silva e tantas outras pessoas exterminadas pelo Estado brasileiro, em suas diversas formas, não fiquem impunes;
 Para fomentar a criação e o fortalecimento das organizações de mulheres negras brasileiras, dar maior visibilidade a situação de opressão secular das mulheres negras em cada canto do país, a fim de que possamos exercer plenamente os nossos direitos como cidadãs brasileiras e construtoras históricas do Brasil.

Fonte: Articulação de Mulheres Negras Brasileiras.

Marcha das Mulheres Negras: contra o racismo e pelo bem viver!

por Rosane Borges

Mais uma vez nós, mulheres negras, iremos à rua. Mais uma vez mostraremos nossa cara para reafirmarmos a nossa humanidade, sistematicamente subtraída por força do racismo. É de nossa natureza sairmos em defesa dos nossos direitos, da nossa família e da nossa comunidade. Temos motivos suficientes para reatualizar as nossas propostas em torno do projeto de país que desenhamos e projetar novas formas de inclusão numa sociedade em que ainda vivemos nas franjas.

A despeito das inegáveis conquistas alcançadas nas últimas décadas, os indicadores socioeconômicos não deixam margem a dúvida: a discriminação racial e de gênero são eixos extremos de exclusão, aprisionando mulheres e homens negros nos extratos mais baixos da pirâmide social, por vezes com mobilidade ainda insuficiente para diminuir o fosso entre brancos e negros. Os dados oficiais são instrutivos, pois reafirmam o que, de resto, constitui realidade incontornável: ainda que a população negra tenha sido a grande beneficiada pelas políticas inclusivas dos últimos anos, ela permanece como a principal vítima das desigualdades, fruto da discriminação e do racismo. Tal situação reclama desenho e execução de políticas capazes de não apenas melhorar as condições de vida de homens e mulheres negras, mas diminuir e eliminar a distância, em muitos casos, que os separa da população branca.

Rosane Borges integra a Coordenação de Comunicação da Marcha das Mulheres Negras 2015 Foto: FCP

Rosane Borges integra a Coordenação de Comunicação da Marcha das Mulheres Negras 2015
Foto: FCP

É preciso, portanto, insistirmos na denúncia tenaz do racismo, operação pela qual se subalterniza e, portanto, se cria cidadãos de segunda classe, se tanto, em uma sociedade hierarquizada racialmente. A admissão do caráter estruturante do racismo no tecido social nos leva a fazer uma avaliação profunda dos modelos de desenvolvimento em voga e a pensar em novos pactos sociais, em perspectivas que possam fundar uma outra dinâmica social. Nós, mulheres negras, estamos profundamente empenhadas em contribuir com essa avaliação.

O bem viver como categoria política

A Marcha das Mulheres Negras 2015 ordena-se em torno do enunciado “contra o racismo e pelo bem viver”. A conjugação desses dois termos não se constitui apenas como estratégia retórica, mas procura incidir no projeto de nação levado a cabo desde tempos remotos até às primeiras décadas do século XXI. Nesse projeto, como se vê, a população negra sempre figurou como extrato rebaixado que procurou, sem o consórcio de outros sujeitos, a plena participação na sociedade brasileira no pós-escravidão (estávamos e continuamos, em muitos expedientes, por nossa própria conta). As experiências e os exemplos de nossas formas de resistência são múltiplos e atestam inequivocamente o lugar marginal a que fomos inseridas. Desse lugar, reivindicamos a vida plena, reivindicamos por saúde, educação, arte, lazer, moradia, em lutas infatigáveis. Das práticas dos terreiros, dos laços comunitários entre famílias negras, das manifestações culturais e religiosas, dos investimentos em educação – ações revestidas de caráter político – extrai-se um expressivo repertório de estratégias para o governo de si e dos pares.

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