Na Conapir, Marcha mobiliza ativistas e organizações de mulheres negras e de movimento negro

Ativistas negras empunharam faixas e tomaram a palavra, em novembro de 2013, para se contraporem ao racismo na 3ª Conferência Nacional de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, em Brasília. Foi um dos principais atos do movimento social negro na conferência, realizado na capital federal. Deu continuidade aos lançamentos regionais, ocorridos em São Luís, Salvador e diversas outras cidades brasileiras.

Ato de lançamento da Marcha das Mulheres Negras 2015,  na 3ª Conapir, em novembro de 2013

Ato de lançamento da Marcha das Mulheres Negras 2015,
na 3ª Conapir, em novembro de 2013


Estava dado o passo decisivo para a nacionalização da Marcha das Mulheres Negras a partir do debate com militantes e organizações. A mobilização nacional está marcada para o dia 25 de julho, Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, com a reivindicação das afro-brasileiras. Essas são algumas das demandas:

 Para exigir do Estado brasileiro e dos diferentes setores da sociedade o fim do racismo, da discriminação racial e de toda a violência contra as mulheres negras;
 Por reparação da dívida histórica que o Brasil tem para com a população negra;
 Pelo fim do genocídio das mulheres negras, das crianças, dos jovens e dos homens negros;
 Para que o conhecimento do patrimônio genético brasileiro seja respeitado e patenteado pelas comunidades tradicionais detentoras desses saberes;
 Por outro modelo de desenvolvimento onde a população negra esteja incluída.
 Por um novo país, democrático, laico, diverso e igualitário com justiça social e sem corrupção;
 Pela livre expressão da fé e da religiosidade;
 Pelo fim do sexismo, da lesbofobia e da homofobia;
 Para que casos como o de Alyne Pimentel, Beatriz Nascimento, Yá Mukumby, Amarildo, Douglas Rodrigues, Claúdia Ferreira da Silva e tantas outras pessoas exterminadas pelo Estado brasileiro, em suas diversas formas, não fiquem impunes;
 Para fomentar a criação e o fortalecimento das organizações de mulheres negras brasileiras, dar maior visibilidade a situação de opressão secular das mulheres negras em cada canto do país, a fim de que possamos exercer plenamente os nossos direitos como cidadãs brasileiras e construtoras históricas do Brasil.

Fonte: Articulação de Mulheres Negras Brasileiras.

Faces do racismo e da violência

Dois aviões lotados de jovens negros, de 15 a 29 anos, caem a cada semana no Brasil. A figura de linguagem expressa o impacto da perda da juventude negra cuja interrupção de futuro compromete os destinos de mães, irmãs, tias, madrinhas, avós, companheiras.

Outro aspecto da violência contra os homens negros e as mulheres negras vem do sistema carcerário. No início deste mês, o Conselho Nacional de Justiça – CNJ divulgou dados sobre nova população carcerária brasileira que é de 711.463 presos, sendo a maior parte formada por pessoas negras. Se contados os mandados de prisão em aberto, de acordo com o Banco Nacional de Mandados de Prisão – 373.991, o contingente alcança 1,089 milhão de pessoas. As informações são do Novo Diagnóstico de Pessoas Presas no Brasil.

Com as novas estatísticas, o Brasil passa a ter a terceira maior população carcerária do mundo, segundo dados do ICPS, sigla em inglês para Centro Internacional de Estudos Prisionais, do King’s College, de Londres. As prisões domiciliares fizeram o Brasil ultrapassar a Rússia, que tem 676.400 presos.

Somos nós, mulheres negras, que sabemos que o nosso povo está ameaçado. É hora de reagir! É hora de organizar a nossa ação contra o extermínio da nossa juventude e o confinamento de homens e mulheres negras nas prisões brasileiras.

Marcha das Mulheres Negras: contra o racismo e pelo bem viver!

por Rosane Borges

Mais uma vez nós, mulheres negras, iremos à rua. Mais uma vez mostraremos nossa cara para reafirmarmos a nossa humanidade, sistematicamente subtraída por força do racismo. É de nossa natureza sairmos em defesa dos nossos direitos, da nossa família e da nossa comunidade. Temos motivos suficientes para reatualizar as nossas propostas em torno do projeto de país que desenhamos e projetar novas formas de inclusão numa sociedade em que ainda vivemos nas franjas.

A despeito das inegáveis conquistas alcançadas nas últimas décadas, os indicadores socioeconômicos não deixam margem a dúvida: a discriminação racial e de gênero são eixos extremos de exclusão, aprisionando mulheres e homens negros nos extratos mais baixos da pirâmide social, por vezes com mobilidade ainda insuficiente para diminuir o fosso entre brancos e negros. Os dados oficiais são instrutivos, pois reafirmam o que, de resto, constitui realidade incontornável: ainda que a população negra tenha sido a grande beneficiada pelas políticas inclusivas dos últimos anos, ela permanece como a principal vítima das desigualdades, fruto da discriminação e do racismo. Tal situação reclama desenho e execução de políticas capazes de não apenas melhorar as condições de vida de homens e mulheres negras, mas diminuir e eliminar a distância, em muitos casos, que os separa da população branca.

Rosane Borges integra a Coordenação de Comunicação da Marcha das Mulheres Negras 2015 Foto: FCP

Rosane Borges integra a Coordenação de Comunicação da Marcha das Mulheres Negras 2015
Foto: FCP

É preciso, portanto, insistirmos na denúncia tenaz do racismo, operação pela qual se subalterniza e, portanto, se cria cidadãos de segunda classe, se tanto, em uma sociedade hierarquizada racialmente. A admissão do caráter estruturante do racismo no tecido social nos leva a fazer uma avaliação profunda dos modelos de desenvolvimento em voga e a pensar em novos pactos sociais, em perspectivas que possam fundar uma outra dinâmica social. Nós, mulheres negras, estamos profundamente empenhadas em contribuir com essa avaliação.

O bem viver como categoria política

A Marcha das Mulheres Negras 2015 ordena-se em torno do enunciado “contra o racismo e pelo bem viver”. A conjugação desses dois termos não se constitui apenas como estratégia retórica, mas procura incidir no projeto de nação levado a cabo desde tempos remotos até às primeiras décadas do século XXI. Nesse projeto, como se vê, a população negra sempre figurou como extrato rebaixado que procurou, sem o consórcio de outros sujeitos, a plena participação na sociedade brasileira no pós-escravidão (estávamos e continuamos, em muitos expedientes, por nossa própria conta). As experiências e os exemplos de nossas formas de resistência são múltiplos e atestam inequivocamente o lugar marginal a que fomos inseridas. Desse lugar, reivindicamos a vida plena, reivindicamos por saúde, educação, arte, lazer, moradia, em lutas infatigáveis. Das práticas dos terreiros, dos laços comunitários entre famílias negras, das manifestações culturais e religiosas, dos investimentos em educação – ações revestidas de caráter político – extrai-se um expressivo repertório de estratégias para o governo de si e dos pares.

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Memória – 35 anos do caso Marli

“A gente queria, pelo menos, ficar algumas horas com o corpo, mas nem isso pode! Os tiros foram quase todos na cabeça”. Há 35 anos, Marli Pereira Soares enfrentava a polícia fluminense para a elucidação do assassinato do seu irmão Paulo Pereira Soares Filho, de 18 anos.

Ela teve a sua casa invadida na madrugada de 13 de outubro de 1979, o irmão agredido e torturado num dos cômodos da casa por três policiais, enquanto estava sob a mira de revolveres. Marli, seus filhos, amiga e outras crianças eram ameaçados de morte enquanto ouviam os ataques contra Paulo. Com o choro das crianças, os policiais levaram seu irmão para a rua e o assassinaram, a poucos metros da residência, com 13 tiros.

Marli faz o reconhecimento de policiais que assinaram o seu irmão  Foto: Reprodução livro

Marli faz o reconhecimento de policiais que assinaram o seu irmão
Foto: Reprodução livro

Num caso que mobilizou o país, Marli Soares dizia ter sua vida garantida por “Deus e pela imprensa”. Corajosa e em busca de justiça, fez revista de tropa com mais de 70 policiais e reconheceu três dos assassinos. Trabalhadora doméstica, teve um de seus dois filhos assassinados, nos anos 1990, um afilhado e o então namorado, poucos dias depois de Paulo. Ameaçada de morte e com casa saqueada e incendiada, Marli não se intimidou. Dos cinco policiais julgados, quatro foram condenados a prisão.

A saga de Marli pela punição dos assassinos do seu irmão é compartilhada por milhares de mulheres negras, vitimadas pela violência racial e de gênero. Em busca da justiça de filhos, irmãos e companheiros, elas têm enfrentado a omissão do poder público. Contrapõem-se à impunidade de assassinos, impedem a profanação da memória de seus entes, fazem investigações e lutam por justiça mesmo que lhes custem a segurança e vida.

Fonte: ROCHA, Maria Alice e MORAES, Maria Teresa. Marli Mulheres/Marli Pereira dos Santos: entrevista e texto. Rio de Janeiro: Avenir, 1981.

Negras palavras

bell hooks, feminista estadunidense Foto: Reprodução Internet

bell hooks, feminista estadunidense
Foto: Reprodução Internet

“Quando nós, mulheres negras, experimentamos a força transformadora do amor em nossas vidas, assumimos atitudes capazes de alterar completamente as estruturas sociais existentes. Assim poderemos acumular forças para enfrentar o genocídio que mata diariamente tantos homens, mulheres e crianças negras. Quando conhecemos o amor, quando amamos, é possível enxergar o passado com outros olhos; é possível transformar o presente e sonhar o futuro. Esse é o poder do amor. O amor cura”.

bell hooks, Vivendo de amor.
(Tradução de Maísa Mendonça)

No texto Vivendo de amor, a feminista negra estadunidense bell hooks aborda impacto da escravidão na afetividade negra. Lança mão da cura pelo amor interior e pelo ato e pela arte de amor para tratar as feridas do racismo e da escravização negra, cuja brutalidade da violência marcou as vidas e os espíritos de gerações de homens, mulheres e crianças negras.

O sentimento que nos move em torno de respeito, liberdade e justiça pode ser o mesmo que nos faça construir o bem viver.